A Primavera Interior
A correspondência entre os ciclos do mundo e os movimentos da alma.
Estamos com os dois pés na primavera há alguns dias — você deve ter notado.
A atmosfera anda mais suave, o sol lutando para estar mais presente - embora gentil -, e há flores surgindo até nos canteiros que você jurava estarem mortos. No Instagram, claro, os amigos pseudo-exotéricos já proclamaram o início do novo ciclo com legendas razoavelmente cafonas — e tudo bem, cada um com sua epifania sazonal, inclusive eu.
Mas para além das frivolidades e do clichê místico sobre “a estação das flores”, eu gostaria que neste texto a gente pudesse esclarecer “qualé que é” das estações, especialmente da primavera, para te mostrar como isso é mais urgente pra você do que você imagina.
Bem, eu poderia dizer que as estações desempenham um papel não só importante, como fundamental nas nossas vidas. Tanto fora (nas dinâmicas da rotina, no convívio social, no cultivo e colheita dos alimentos, na temperatura que dita o tom da história) como dentro.
Você sabe, já deve ter suspeitado; quem nunca, num dia nublado, já não se sentiu mais introspectivo? Num dia de garoa e temperatura amena, não se sentiu mais nostálgico?
Não é novidade, certo? É ordinário.
E por ser ordinário, a maioria de nós passa pela vida sem se dar conta de que o mundo lá fora nos atravessa — você vendo ou não, querendo ou não.
Ano após ano, o mundo criado conta a mesma história: expansão e retração. Vida e morte. Germinação, florescimento, colheita e repouso.
Esses movimentos — tão naturais à Terra — são também os movimentos da alma. Que se repetem em uma eterna espiral ascendente de lapidação.
“Pois, quando Deus contemplou o rosto do homem que Ele formou, viu todas as Suas obras inteiras refletidas nessa mesma forma humana” — Santa Hildegarda.
“O homem é um pequeno mundo (microcosmo), pois contém em si tudo o que existe no grande mundo (macrocosmo).” — São Gregório de Nissa
Ou seja, resumindo de forma totalmente rudimentar: temos uma relação de espelhamento entre nós e o mundo. Se renasce ou recolhe-se, nossa natureza pessoal se movimenta na mesma medida, também nos dando a chance de acompanhar as transformações profundas que ocorrem.
Ao perceber que há é, de fato, um espelhamento — uma correspondência inevitável — entendemos a importância das estações: elas não são apenas um fenômeno externo e separado, mas um mapa vivo para o autoconhecimento e a harmonização entre o que somos, e o que é.
E por que buscar essa harmonia? Não bastaria simplesmente existir?
Em teoria, sim. Mas todos nós, em algum grau, vivemos sob uma névoa — um estado de obscurecimento que nos afasta da luz e da consciência maior.
Como se sabe, o objeto, quando observado, se comporta diferente. O mesmo ocorre com o conhecimento da realidade e de nós mesmos — quando observados, passamos a existir de forma mais inteira, o que permite que o movimento aconteça sem ressalvas.
Portanto, para que esse processo se cumpra de modo verdadeiro, precisamos compreender cada etapa. É a consciência do ciclo — de cada fase, de cada estação — que potencializa suas virtudes e nos protege de seus excessos.
E agora, veja: uma certa claridade começa a se infiltrar em tudo. A primavera que chega, e com ela, o convite nitidamente mais doce, mas também o mais exigente do ano: renascer.
Aquilo que foi gestado em silêncio durante o inverno começa a pedir corpo, cor, movimento.
Ora, é o tempo das sementes rompendo a própria casca, dos corpos buscando leveza e das ideias, que descendo de seu plano tocam as mentes humanas que tiveram a disciplina de fincar raízes e galgar estatura moral e virtuosa durante o período de retração.
Ou seja, a primavera pede para retomar o ritmo da vida sem perder a profundidade conquistada no recolhimento.
Portanto, reflita: Como permitir que suas virtudes despertem e seus vícios se dissolvam em você?
Veja, ela é leve, úmida, circulante. O elemento “ar” predomina. Por isso, nesta época, tudo em nós se move mais rápido: pensamentos, afetos, desejos. É a melhor época para experimentar e criar — e também a mais fácil para se perder em excesso.
A virtude da primavera é a esperança — não o otimismo cego. Seu vício é a dispersão — o excesso de começos, o impulso de querer ser tudo de uma vez.
Por isso, quem quiser atravessá-la de forma consciente precisa aprender a renascer com sobriedade, capiche? “Reconhecer o entusiasmo sem se afogar nele”, repita: “Reconhecer o entusiasmo sem se afogar nele” — muito bem.
Por isso aqui vão algumas práticas que eu gosto de manter durante a primavera que me ajudam a potencializar suas virtudes e acalmar seus vícios:
Se expor à luz — literalmente e simbolicamente. A luz da manhã e a luz da verdade vão vitalizar o que quer que você esteja criando ou se tornando.
Mover o corpo — caminhar, dançar, se exercitar. Se falta movimento, um ritmo anti-natural de estagnação começa a acontecer. Isso acumula energia, podendo gerar uma ansiedade aguda e um sentimento generalizado de desintegração.
Disciplina para dar forma ao que sonhou no inverno — tenha como sagrado colocar 1h do seu dia para tirar seus projetos do mundo das ideias e trazer para a realidade. Não se esqueça que desabrochar é natural; é só a gente não se colocar no meio.
Mantenha flores em casa — Se possível, flores em botão, para acompanhar o desabrochar e te lembrar da beleza e verdade do processo.
Reoriente a sua alimentação — prefira alimentos leves, vivos, de fácil digestão. É tempo de desintoxicar o corpo e a mente, então o que pesa demais nesse período trava o fluxo.
Tenha os cristais como aliados — a professora Gabriela Lays Saboia (@resgatedabeleza), medievalista cristã, recomenda o uso de 3 categorias: A Esmeralda e Quartzo verde: para despertar o que Santa Hildegarda chamou de “Viriditas” — a força vital e verdejante que vem de Deus. Berilo (água marinha) e onix: como purgativos, calmantes e exorcistas. E Sardo / Sardonica: para febres e desânimos naturais à época.
Use e abuse dos chás certos — a Sarah, herbalista cristã, e dona do “Santa Cura” (@santacuratn) nos recomenda plantas associadas ao elemento da estação; o ar. Então considere incluir Hortelã (que traz vigor mental e clareza), Sabugueiro (que ajuda nas alergias e na eliminação de toxinas), Alecrim (que afasta o cansaço) e, caso queira um blend perfeitamente pensado para potencializar as belezas dessa época, o Blend Bosque Encantado é perfeito pra isso — que você pode comprar com 10% de desconto com o nosso cupom “STEPHANIE10”.
Meditar sobre esse alinhamento e incutir na sua rotina essas práticas vai permitir que você não termine a primavera sobrecarregado(a) e com um congestionamento de entusiasmo que não foi canalizado.
Assim, quando o verão chegar, ele vai te encontrar lúcido(a), — não exausto(a) — pronto(a) para exercer a coragem de sustentar aquilo que começou a criar agora.


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