Produtividade orgânica
A verdade sobre a produtividade humana e o ritmo que perdemos.
Não sei como é pra você, mas eu só encosto a cabeça no travesseiro em paz quando consigo dar check em uma única fatídica pergunta: fui produtiva hoje?
Bem ou mal, meu senso de auto-valor, felicidade e expansão parece ter feito um pacto com essa palavra: Produtividade. E sejamos francos — quem escapa?
Nunca conheci um único mortal que não medisse, ao menos secretamente, sua importância pela capacidade de fazer coisas, grandes ou pequenas.
Isso porque produtividade é aquilo que sabemos intuitivamente, mesmo sem pensar muito a respeito, que nos leva a nos tornar e criar tudo aquilo que desejamos.
Se produtivo, um dia culto, forte, rico e virtuoso.
Se não, nada disso, nunca.
Mas aqui está a ironia: mesmo tratando produtividade como a jóia da coroa da nossa geração, quase ninguém sabe dizer o que ela realmente é. Passamos o dia inteiro correndo atrás dela sem parar para nos perguntar: afinal, o que estou caçando? O que é ser produtivo?
A resposta automática costuma ser simples:
“Uma pessoa que dá conta de tudo.”
Pessoa completa que treina, estuda, trabalha, confraterniza, cuida dos filhos, faz o jantar, pratica um hobby e tudo isso sem deixar um prato sujo na pia ao final do dia.
Justo. Todo o anseio da alma humana perfeitamente encaixado, de forma sistemática, em 24h.
Acharia perfeitamente plausível essa resposta, se a beleza dela não estivesse alocada na quantidade das coisas, e sim, na qualidade que se faz cada uma delas.
Não que a nossa realização também não dependa da completude de todas essas esferas, mas quando aceitamos a produtividade humana como sistemática, esquecemos que ela é, essencialmente, orgânica. E nessa confusão mora a minha e a sua frustração diária.
Eu vou explicar.
De Adam Smith a Paul Krugman, todos convergem numa mesma ideia: produtividade é, em essência, eficiência - a habilidade de transformar tempo, trabalho e capital no maior valor possível.
E se estamos falando de eficiência, automaticamente nada nos parece mais eficiente do que uma produção sistematizada e precisa: linear, previsível, que entrega sempre o mesmo resultado no mesmo tempo, não?
Mais ou menos.
Humanos podem, e de fato desenvolvem precisão, disciplina e controle — atributos que fazem uma máquina funcionar dentro de uma engrenagem maior. Cumprir horários, seguir processos, organizar tarefas com rigor? Sim, podemos e devemos.
Mas eis a ironia: esse não é o modelo humano de eficiência. Esse é apenas um modelo de manutenção da ordem. Pra nós, a verdadeira produtividade nasce quando usamos o que nos torna diferentes das máquinas — criatividade, intuição, ritmo próprio, julgamento consciente — para gerar valor.
Foi na Revolução Industrial que a confusão começou. As máquinas ditaram um ritmo implacável, e o mundo passou a medir o valor humano pela capacidade de imitá-las: fazer mais, mais rápido, mais constante.
De repente, nos tornamos “checkpointers”, riscadores de listas intermináveis, cumpridores de tarefas sem alma.
O resultado?
Mais atraso para entregar trabalhos: porque a falta de atenção gera má qualidade e “refações” infinitas no trabalho gerado.
Procrastinação insistente: porque realizar qualquer coisa vira um fardo exaustivo de carregar.
Ansiedade aguda: porque você sente que nunca vai dar conta de tudo.
Incapacidade de criar, ler, estudar com amor: porque você desaprende a estar presente.
Peito pesado: porque o dia se preencheu de dever, e nunca de sentido.
Ou seja, a produtividade que realmente importa — aquela que nutre, expande e sustenta — é orgânica.
Orgânica porque como o próprio conceito, tem altos e baixos, tem imperfeições, marcas do tempo, ciclos abundantes e ciclos áridos. Porque no seu tempo e com a sua presença, gera coisas vivas. Frutos nutritivos de processos que não se pode apressar.
Da produtividade orgânica nascem trabalhos que são feito com alma, decisões sábias que mudam a história de uma empresa ou família, sessões de aprendizados que marcam até o fim da vida, soluções de problemas impossíveis e espaço para não só fazer, mas deixar ser ser feito - pela consciência eterna e perfeita d’Aquele que tudo criou.
Então, respondendo à minha pergunta inicial, me parece que isso é ser produtivo de verdade; Olhar o tempo como um solo fértil que pode ser aproveitado para aquilo que só a gente, com a nossa humanidade, pode fazer.
Preservar sim o sistema, a disciplina e o controle para a manutenção da vida, mas deixar que a produtividade cresça orgânica, viva, humana — para que, ao final do dia, você deite a cabeça no travesseiro com paz, sabendo que não apenas passou pelo o dia, mas o viveu.


Maravilhosooooo! Uauuuuuuu sou essa mulher!!
Muito bom!